Algo interessante neste Salmo 112 é que ele toca e tange diversos aspectos da vida. Assim, enquanto o lemos podemos encontrar o retrato do homem bem-aventurado, que tem este coração resiliente, com posturas de diligência e sobriedade quanto ao trato administrativo de sua vida. Veja por exemplo o que lemos no verso 5: "disporá de suas coisas com juízo".
A primeira realidade que aqui encontramos é a de que este homem tem, e se tem é porque recebeu, amealhou, conquistou, provisionou-se a partir de um trato ético, de um trabalho sério e justo. Quando o texto diz que ele "disporá de suas coisas" afirma portanto que ele as tem.
Mas a chave de nossa reflexão aqui é a expressão juízo, a qual aqui pode significar bom senso, sabedoria, julgamento das circunstâncias e decisões com sobriedade.
No trato administrativo de nossas vidas, a conquista de bens e condições de sustento melhores precisa ser marcada pelo bom juízo, pela pertinente ação de condução das nossa finanças, aquisições e mesmo filantropia ou ajuda mútua.
O texto em seu contexto integral nos apresenta uma pessoa que empresta e dá, mas até ao fazê-lo, dispõe aquilo que tem com "juízo", com sabedoria e exatidão em suas decisões, caso contrário veremos circunstâncias nas quais, mesmo com coração bondoso alguém entregue o que é seu ao "devorador", por tabela, uma vez que ajude quem não deveria ou realmente precise ser ajudado.
O senso de juízo precisa ser aplicado até quando pretende-se fazer o bem. Este homem do texto o faz: "Ele dispõe suas coisas com juízo". Este homem "abre a mão ao aflito" e o faz com sabedoria e direção de Deus, e não o faz sozinho, sem a direção compartilhada com os seus.
Voltando ao fato de ter coisas para dispor, sabe alguém assim que tudo que tem não é dele, foi-lhe dado como mordomo de Quem realmente é o Dono.
Esta visão da mordomia expressa exatamente a perspectiva equilibrada daqueles que são firmes em seus corações no tocante à sua identidade espiritual. Afinal de contas não é fácil que alguém considere que o produto do suor e da entrega pessoal às atividades diárias de trabalho seja propriedade de Deus em sua vida, não é mesmo?
Um certo dia, ainda no início do meu ministério, quando era Obreiro da Igreja Batista da Lagoinha no Bairro Vila Clóris, em conversa com o Pr. Márcio Valadão, falava ao mesmo sobre uma pessoa do rebanho que insistia em dizer que nã havia "Dízimos" no Novo Testamento.
Ele prontamente me respondeu, "Fernando, no Novo Testamento não apenas encontraremos a palavra Dízimo, encontraremos "TÚDIMO". De imediato fiquei sem entender aonde o Pr. Márcio queria chegar? Túdimo?
Jamais havia ouvido alguém dizer isto.
"Sim." Foi o que ele me disse: No Novo Testamento, em nossas vidas TUDO é do Senhor. Afinal de contas, como nos diz o texto "Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. Colossense 1.16 e 17
Quem consegue ver-se neste "todas as coisas" consegue compreender plenamente o modo como precisa adminstrar as coisas, tempo, família e demais ações pertinentes à vida no seu dia a dia, e se persevera nisto é porque tem um coração decidido e firme nesta questão.
Há algo que Jesus disse que muitos não conseguem linkar ao traço administrativo de suas vidas, mas está profundamente ligado e é de fato algo a se pensar com seriedade.
Em Marcos 4. 24 e 25 lemos: "E seguiu ensinando: “Ponderai atentamente o que tendes ouvido! Pois com a medida com que tiverdes medido vos medirão igualmente a vós; e ainda mais vos será acrescentado! Porquanto, ao que tem mais se lhe dará; de quem não tem, até o que tem lhe será retirado”.
O contexto aqui está ligado ao ensino da Parábola do Semeador, que refere-se exata e primeiramente ao anúncio do Reino de Deus por meio da semeadura da Palavra de Deus.
Mas há aqui um fato que chama a atenção e é pertinente quanto a administração das coisas de Deus em nossas vidas.
Vivemos todos debaixo do Princípio da Semeadura e da Colheita, assim como nos ensina o texto de Paulo aos Gálatas, capítulo 6.7 e 8. Desta maneira, temos a opção de estabelecer em nossos atos administrativos pessoais, usando indevidamente a nossa mordomia, semeando para a carne e colhendo corrupção.
Ora, aqui está o mistério terrível, o que se semeia desta maneira é o que desvanece, se desfaz, se corrompe, se destrói. É a história do "bolso furado" que a Bíblia nos apresenta, alguém "tem" e de repente "não tem mais", até o que tem "lhe é tirado". E a gênesi deste processo se deu porque a semeadura foi entre espinhos e pedregais, e não em "boa terra". Neste paralelo que estabeleço aqui, " a boa terra" é a semeadura da nossa mordomia e administração efetivada segundo os Princípios e Vontade de Deus.
O homem que nos é apresentado pelo Salmo 112 tem coração assim, firme na convicção de que sua vida pertence ao Senhor, de que vive para Ele nesta terra, e porque se vê assim, as demais dimensões de sua vida giram em torno da Vontade de Deus para a sua existência.
Imagine-se agora uma pessoa extremamente rica, possuidora de diversos bens e possibilidades financeiras avançadas. Você precisa de um administrador confiável de tudo isto para lhe auxiliar no trato de uma gestão pertinente. Que tipo de pessoa você procuraria? Uma pessoa que se assenhorasse de suas coisas como se fossem suas ou uma pessoa de caráter ilibado, de coração firme e resoluto para administrar coisas que sabe não lhe pertencer, um verdadeiro mordomo?
Isto que lhe digo hoje está muito de acordo com o que nos diz o Senhor na Parábola dos Talentos que encontramos em Mateus 25:14-30.
Uma das expressões mais fortes do que Jesus disse acerca da mordomia está descrita aqui, nos versos 26 a 2:“O senhor respondeu: "Servo mau e negligente! Você sabia que eu colho onde não plantei e junto onde não semeei? Então você devia ter confiado o meu dinheiro aos banqueiros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com juros. Tirem o talento dele e entreguem-no ao que tem dez. Pois a quem tem, mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado."
Falar da administração pessoal de nossas vidas é tão mais espiritual quanto falar dos dons espirituais, das curas e expulsão de demônios, afinal de contas, aqui reside o fato de entendermos ou não o que significa dizer que somos "propriedade exclusiva de Deus", conforme Ele mesmo nos diz. "Porém, vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, cujo propósito é proclamar as grandezas daquele que vos convocou das trevas para sua maravilhosa luz."
I Pedro 2.9
Porque assim somos, vivamos assim, com corações firmados na identidade que o Senhor nos deu.
Deus nos abençoe e até o próximo post.

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